Começa aos 19 anos, com salário sem expediente. Segundo o MP-RJ, o método cresce na Alerj. No mesmo período, cresce o patrimônio: franquia, mansão, imóveis em dinheiro vivo.
O salário sem expediente
Aos 19 anos, Flávio recebia salário da Câmara por um cargo de 40 horas semanais em Brasília, na liderança do partido do pai. No mesmo período, fazia faculdade presencial e estágio no Rio.
Salário de quem não aparece para trabalhar é pago com o seu imposto.
O salário que voltava
No gabinete de Flávio na Alerj, 13 assessores depositaram R$ 2,06 milhões na conta de Fabrício Queiroz, seu assessor e homem de confiança. O MP-RJ denunciou os dois por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Era salário pago pela Assembleia do Rio, com dinheiro público, que saía do contracheque dos assessores e voltava em espécie, segundo o MP-RJ.
O outro lado. As provas foram anuladas pelo STJ em 2021 por questão de foro, sem julgamento do mérito. O TJ-RJ arquivou a denúncia, e a investigação pode ser refeita.
Voltar ao mapaA loja que depositava mais nos dias vazios
A franquia de chocolates de Flávio no Via Parque Shopping recebeu R$ 1,6 milhão em dinheiro vivo. Os picos de depósito caíam em dias de pouco movimento na loja, segundo o MP-RJ.
Para os promotores, a loja era um dos destinos do dinheiro da rachadinha: entrava em espécie e saía como faturamento.
Se o dinheiro vinha da rachadinha, como diz o MP-RJ, era salário público pago com o seu imposto.
O outro lado. Flávio nega irregularidades. As provas do caso da rachadinha foram anuladas pelo STJ por questão de foro, e a investigação pode ser refeita.
A mansão com crédito de banco público
Flávio comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília com R$ 3,1 milhões financiados pelo BRB, banco estatal, em condições especiais. No Rio, declarou R$ 638 mil pagos em espécie por imóveis.
No Rio, revendas rápidas com valorização de até 200%. Em Brasília, taxas especiais e comprovação de renda sob suspeita.
O crédito do senador saiu do BRB, um banco público, que pertence ao povo do Distrito Federal.
51 imóveis em dinheiro vivo
Flávio está entre os compradores. Comprar imóvel em dinheiro vivo, sem financiamento e sem transferência bancária, é um dos métodos mais comuns para dar aparência legal a dinheiro de origem suspeita, porque a compra não deixa rastro bancário. O levantamento do UOL em cartórios reuniu as compras de Jair Bolsonaro, dos três filhos mais velhos, incluindo Flávio, e de outros parentes desde os anos 1990.
As escrituras registram pagamento "em moeda corrente nacional".
É o mesmo padrão da franquia de chocolates e da mansão do BRB: dinheiro vivo que não passa pelo banco e não deixa rastro. Você paga com Pix, boleto e financiamento.
O outro lado. A família contesta que o termo das escrituras signifique dinheiro em espécie.
Medalha para o chefe do Escritório do Crime, a família dele na folha, emenda para o homem hoje condenado no caso Marielle. Os nomes da milícia do Rio passam pelo gabinete de Flávio.
A medalha para o chefe do Escritório do Crime
Flávio deu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj, ao ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega quando ele estava preso por homicídio. Queiroz também fazia depósitos para ele, segundo o MP-RJ.
Adriano foi morto na Bahia em 2020, durante operação policial.
Entre tantos policiais do Rio, o escolhido para a maior honraria estava preso por homicídio e é apontado como chefe do grupo de extermínio da milícia.
A mãe e a ex-mulher do miliciano no gabinete
Flávio manteve no gabinete Danielle Mendonça, ex-mulher de Adriano, de 2007 a 2018, e Raimunda Veras, mãe dele, nos últimos anos desse período. Os salários voltavam em dinheiro vivo para Queiroz, segundo o MP-RJ.
O dinheiro que voltava para Queiroz é o mesmo fluxo descrito no caso da rachadinha.
O seu imposto pagava salário à família do chefe do Escritório do Crime.
O outro lado. O caso da rachadinha foi arquivado após a anulação das provas por questão de foro e pode ser refeito.
R$ 200 mil do Senado para o chefe do TCP
Em 2023, a assessora de Flávio no Senado negociou por cinco meses com Robson Calixto, o Peixe, apontado como chefe do TCP (Terceiro Comando Puro) e como elo no caso Marielle. O gabinete enviou R$ 199,9 mil de emenda para um projeto indicado por ele, em área da facção.
Emenda é dinheiro do orçamento federal, o mesmo que falta no posto de saúde e na escola.
O outro lado. Flávio afirma que a emenda foi destinada dentro da legislação.
Os mandantes da morte de Marielle e o pedido de emenda
Flávio não é investigado pela morte de Marielle Franco. A seta é outra: em 2023, o gabinete dele orientou Peixe a levar Chiquinho Brazão para reforçar um pedido de emenda. Anos depois, os dois foram condenados pelo crime.
Marielle foi eleita com mais de 46 mil votos. Os homens condenados pela morte dela buscavam emendas no gabinete de um senador que hoje pede o seu voto para presidente.
Não é coisa do passado. Aliados políticos, clientes do escritório de advocacia e vizinhos de sala aparecem presos, réus ou investigados.
O aliado preso sob suspeita de vazar a operação
Flávio apoiou Rodrigo Bacellar para a presidência da Alerj. Em dezembro de 2025, foi preso pela PF, suspeito de vazar a operação que mirava TH Joias, outro aliado do grupo.
Segundo a PGR, as informações sigilosas foram repassadas antes da ação policial e comprometeram a operação.
Quando uma operação contra o crime vaza, quem continua exposto é o seu bairro.
O aliado de Flávio que virou réu por ligação com o Comando Vermelho
Flávio tem como aliado TH Joias, ex-deputado estadual que virou réu em setembro de 2026 por organização criminosa ligada ao CV, tráfico e contrabando.
Segundo a denúncia, o mandato era usado para lotar comparsas, negociar armas, intermediar drogas e repassar informação da polícia ao CV no Complexo do Alemão.
Quando o crime tem mandato, é a segurança do seu bairro que entra na negociação.
O senador advogado do entorno do Faraó
Flávio acumula o mandato com a advocacia. No STJ, assinou o pedido para trancar a ação penal contra dois ex-sócios do Faraó dos Bitcoins, presos em 2021. O pedido foi negado.
Os ex-sócios foram denunciados por crimes contra o sistema financeiro, gestão fraudulenta e organização criminosa. O mesmo escritório recebeu R$ 500 mil da Contábil Correa por "assessoria jurídica", empresa ligada a uma consultoria que recebeu repasses do Banco Master.
A pirâmide levou as economias de pequenos investidores. O senador trabalhou para livrar os sócios do processo.
O outro lado. Sobre os R$ 500 mil, Flávio diz que a relação é legal e privada.
Voltar ao mapaA sala 2601
A Bravo Grafeno, empresa que tem Flávio entre os donos, está registrada na mesma sala de 16 empresas do Careca do INSS. O contador do Careca, hoje preso, faz a contabilidade do escritório de Flávio, e a irmã dele administra esse escritório.
A ponte com o Banco Master. Em 2022, ainda no governo Bolsonaro, o INSS mudou as regras do consignado e liberou o cartão de benefícios Credcesta 16 dias depois de uma carta do Banco Master detalhando o produto. A mudança beneficiou Daniel Vorcaro, dono do banco: os contratos do Master no INSS saltaram de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024. É o mesmo banco do caso Dark Horse.
O esquema descontou dinheiro da aposentadoria de 4,3 milhões de pessoas sem autorização. Pode ter sido o benefício da sua mãe ou do seu avô.
O outro lado. Flávio nega envolvimento nas fraudes do INSS.
Voltar ao mapaR$ 134 milhões negociados com o dono do Banco Master para um filme sobre o pai. O mesmo banco que recebeu quase R$ 1 bilhão da previdência dos servidores do Rio.
O irmãozão do banqueiro
Flávio levou o filme Dark Horse, sobre o pai, a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e negociou R$ 134 milhões. Cobrou parcelas atrasadas por mensagem. Na véspera da prisão do banqueiro, escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre."
Dois fatos lado a lado. O mesmo Banco Master recebeu R$ 970 milhões da Rioprevidência, que paga aposentadorias e pensões de servidores do Rio. A PF investiga se o banco usava a entrada de dinheiro novo, inclusive de institutos de previdência, para sustentar compromissos antigos.
O banqueiro que bancava o filme da família é o mesmo que recebeu o dinheiro da aposentadoria de professores, policiais e enfermeiros do Rio.
O caminho do dinheiro até os EUA
Oito dias depois de Flávio cobrar parcelas do filme, Vorcaro enviou mais US$ 1,6 milhão ao Havengate, fundo nos EUA administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
Segundo reportagens, Eduardo Bolsonaro e Mário Frias atuaram em paralelo na ponta americana do financiamento.
O dinheiro do filme da família passou por um fundo nos EUA ligado ao irmão do candidato.
Tarifa sobre o produto brasileiro tratada como cálculo eleitoral, minerais estratégicos num memorando com a capa da campanha e ofensiva contra a sua folga.
Os EUA contra o Brasil, com a família por perto
Enquanto Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, articulava em Washington, o governo dos Estados Unidos aplicou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país. Diante de uma nova tarifa de 25%, Flávio pediu ao governo americano 180 dias de prazo, ou seja, que a decisão só saísse depois da eleição de outubro.
Tarifa é emprego a menos na indústria e no agro. No pedido de Flávio, o argumento não era o seu emprego, era a eleição.
O subsolo do Brasil em 22 páginas
Um memorando de 22 páginas oferecendo o Brasil como parceiro dos Estados Unidos circulou com a capa "Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign". Quem assina é André Marinho, filho do suplente de Flávio no Senado. O tema do documento são as terras raras, um grupo de minerais críticos usados em celulares, carros elétricos, turbinas eólicas e armamentos, e que o Brasil tem em abundância.
Dois fatos lado a lado. Relatório reservado da Abin enviado à Presidência, ao Ministério da Justiça e ao TSE aponta risco de influência e interferência externa dos Estados Unidos no processo eleitoral de 2026. Ele não afirma que o memorando das terras raras faz parte desse risco.
O subsolo brasileiro de minerais estratégicos aparece oferecido aos EUA num documento com a marca da campanha de Flávio, na mesma época em que a Abin alerta sobre interferência americana na eleição.
O outro lado. O memorando é tratado oficialmente como iniciativa independente.
Contra a sua folga
Em setembro, Flávio interrompeu a própria campanha para ficar em Brasília e articular no Senado contra a PEC que acaba com a escala 6x1.
Ele defende que a jornada seja negociada entre trabalhador e patrão.
Se você trabalha seis dias para folgar um, foi contra o seu segundo dia de descanso que ele parou a campanha.
O outro lado. Publicamente, evita dizer que é contra. Quando perguntado, disse apenas que votaria a favor do projeto que libera o pagamento por hora trabalhada.
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